INTERPRETANDO ALTERAÇÕES ELETROLÍTICAS  
 
O organismo encontra-se num delicado equilíbrio no qual a água corpórea e os eletrólitos são constantemente ajustados por diversos mecanismos.
O conteúdo total de água no corpo de um animal é de aproximadamente 60% de seu peso, sendo este dividido em 2 compartimentos principais: o fluido intracelular (FIC) e o fluido extracelular (FEC). As moléculas de água transitam livremente entre estes compartimentos, sendo a pressão osmótica a principal reguladora desta distribuição. Os principais fatores que contribuem para a manutenção do equilíbrio eletrolítico são a ingestão através da dieta, o hormônio antidiurético (reabsorção de água e sódio e excreção de potássio), a aldosterona (reabsorção de água e sódio e excreção de potássio) e o peptídeo natriurético atrial (excreção de água e sódio).


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Sódio

Sua principal função é exercer pressão osmótica, mantendo assim em equilíbrio a distribuição de água no organismo, além de participar do equilíbrio ácido-básico através de sua troca por íons hidrogênio (H+) ou potássio (K+) nos rins.

Hiponatremia
Pode ocorrer por perda nos episódios de vômitos e diarréia.
Nas nefropatias, em que o mecanismo de conservação de sódio opera deficientemente pela existência de lesões tubulares, a excreção deste eletrólito tende a ser elevada, como ocorre nos casos de insuficiência renal crônica.
O hipoadrenocorticismo primário é caracterizado pela diminuição da secreção de aldosterona, um mineralocorticóide produzido no córtex adrenal, o qual promove a reabsorção de Na+ e água e excreção de K+ pelos rins. Assim, a ausência deste promove perda de Na+ através da urina. Sessenta por cento dos cães e cem por cento dos gatos apresentam hiponatremia nesta condição. Um quociente Na+:K+ menor que 27:1 é indicativo deste processo, ainda que não ocorra em todos os casos.
O uso de diuréticos de alça (furosemida) e antagonistas da aldosterona (espironolactona) também leva à perda de Na+ pela urina.
Nos casos de Diabetes mellitus o aumento da osmolaridade causada pelo excesso de glicose atrai água para o plasma, expandindo o FEC e diluindo a concentração de Na+. Além disso, a hiperglicemia induz diurese osmótica, que conduz à perda urinária de Na+.
Hiponatremia por diluição pode ocorrer por hiperhidratação ou retenção de água.
Valores de Na+ falsamente diminuídos podem ser observados em amostras lipêmicas ou com altas concentrações de proteínas. Isso ocorre simplesmente porque o volume da fase líquida plasmática, onde estão presentes os eletrólitos, está reduzido.

Hipernatremia
A hipernatremia está associada à desidratação secundária a um consumo inadequado de água ou perda excessiva de água pura. Esta condição é mais comum nos casos de Diabetes insipidus, onde há diminuição da secreção de ADH ou diminuição da sensibilidade a este hormônio nos túbulos renais, resultando em perda excessiva de água, sem perda de Na+.

Potássio

É o principal eletrólito intracelular, com grande importância na excitação cardíaca e neuromuscular. O aumento ou diminuição do K+ pode acarretar em arritmias, fraqueza muscular e paralisias.

Hipopotassemia
Processos poliúricos como insuficiência renal crônica, D.mellitus e uso de diuréticos aumentam as perdas renais de K+, assim como o hiperaldosteronismo e a hipercortisolemia.
Vômitos e diarréias persistentes também podem levar à hipopotassemia por perda, particularmente se o fluido de reposição não contiver esse eletrólito.
Na alcalose o organismo tenta manter o equilíbrio ácido-básico através da troca de íons K+ do FEC por H+ do FIC, podendo resultar em hipopotassemia.
Assim como ocorre com o Na+, amostras lipêmicas ou com altas concentrações de proteínas podem levar a uma falsa redução dos níveis de K+.

Hiperpotassemia
A hiperpotassemia pode ser decorrente da excreção reduzida deste eletrólito. Isto ocorre na insuficiência renal aguda (fase oligúrica) já que a principal forma de eliminação é renal. Obstrução do fluxo urinário ou ruptura de bexiga também impedem sua eliminação. Baixas concentrações de aldosterona, como ocorre no hipoadrenocorticismo, resultam na diminuição da excreção deste eletrólito levando ao seu acúmulo.
A redistribuição do K+ do FIC para o FEC pode ocorrer na acidose principalmente metabólica, pois na tentativa de aumentar o pH do plasma ocorre entrada de íon H+ e saída de K+ da célula.
A hemólise pode levar à hiperpotassemia, particularmente em alguns membros da raça Akita, pois suas hemácias possuem maiores níveis de K+.
Concentrações falsamente elevadas também podem ocorrer secundariamente à demora em separar o soro em amostras com aumento extremo do número de leucócitos ou plaquetas, elementos celulares ricos em K+.

Cloreto

É o principal ânion extracelular do corpo. As alterações de seus níveis geralmente acompanham as mudanças dos níveis de Na+. Assim, os fatores que causam alterações no Na+ também alteram o cloreto (Cl-). O desequilíbrio entre estes eletrólitos geralmente é decorrente de alterações no equilíbrio ácido-básico, já que as concentrações de Cl- variam inversamente às do bicarbonato para a manutenção da neutralidade eletroquímica do organismo. Hipocloremia é causada especialmente por vômitos, onde a perda de ácido clorídrico produz perda de Cl- sem uma diminuição significativa de Na+.

A importância de se detectar tais alterações torna-se evidente à medida que estas devem ser corrigidas. Tal conhecimento nos permite fazer a opção por uma terapia eficiente, administrando medicamentos e fluidos com a certeza de que fizemos uma boa escolha.

Luciana Langrafe

 
   
   
   
   
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